domingo, 7 de junho de 2015

INGERIR LEITE E DERIVADOS CAUSA CÂNCER?

Tem havido uma grande quantidade de informações confusas nos jornais recentemente sobre leite e câncer. Será que leite causa câncer?A resposta a esta pergunta não é simples, por isso é fácil ver como você pode ser confundido.

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Pesquisadores e médicos concordam que a dieta e o câncer estão intimamente ligados. E comer uma dieta bem equilibrada pode ajudar a reduzir o risco de câncer. O que é mais difícil de dizer são exatamente quais os alimentos mais importantes em causar ou reduzir o risco de câncer. Estudos investigando uma ligação entre câncer e produtos lácteos não deram resultados claros. Alguns estudos mostram um aumento no risco de desenvolvimento de cancro, e alguns mostram uma diminuição. Devemos analisar alguns pontos, ou argumentos em relação aos prós e contras:

CORRELAÇÃO NÃO É CAUSALIDADE: O fato de vários artigos (ou dados de países que consomem mais leite) sugerirem que o leite está correlacionado ao câncer, NÃO QUER DIZER QUE ELE É A CAUSA. Existem várias atitudes no estilo de vida como, por exemplo, fumar, beber e sedentarismo que podem influenciar no desenvolvimento de um câncer, e não só basicamente a dieta. Isso não quer dizer que a dieta não influi. Mesmo assim um indivíduo que não fume, não beba, não consuma carne ou leite poderá ter câncer. Esses fatores apenas, caso sejam comprovados algum dia, podem aumentar a chance do cancro do existir, ou favorecer o seu desenvolvimento, e não causar.

(Sobre o famoso ESTUDO DA CHINA SUGIRO A LEITURA http://rawfoodsos.com/2010/07/07/the-china-study-fact-or-fallac/)
Um exemplo simples em que correlação pode não ser causalidade é o estudo publicado na revista Pediatrics, denominado Breakfast Eating and Weight Change in a 5-Year Prospective Analysis of Adolescents: Project EAT (Eating Among Teens). Este artigo afirma que adolescentes que tomavam o café da manhã eram mais ativos fisicamente, ingeriam mais fibras e tenderiam a ser mais magros do que os que pulavam o café da manhã. Mas seria o café da manhã, o responsável pela maior atividade física, entre os outros benefícios, ou seriam as pessoas mais ativas fisicamente que tenderiam a tomar café da manhã e ganharem menos peso corporal? Ao final do artigo os autores admitem que essa correlação talvez não fosse uma causa. Demonstraram um bom senso crítico ao próprio achado clínico.

OS POUCOS ESTUDOS FAVORÁVEIS AO LEITE SÃO PATROCINADOS PELA INDÚSTRIA:  Para a comunidade científica ainda analisar o caso do leite com devido cuidado e ainda não afirmar nada de concreto sobre alguns benefícios ou malefícios, o argumento de que existem poucos artigos favoráveis ao leite é inválido. Existem muitas evidências, com boa qualidade favoráveis ao leite. Não devemos confiar cegamente nos estudos patrocinados, nem muito menos desprezá-los (seja pela indústria do leite, farmacêutica, etc.). Existem excelentes evidências em vários estudos patrocinados, e sem eles, talvez, teríamos muitos atrasos em várias análises (infelizmente as pesquisas são caras e necessitam de apoio financeiro). Mas também sabemos que existe muita tendenciosidade em estudos patrocinados. De acordo com um estudo, Lack of involvement of medical writers and the pharmaceutical industry in publications retracted for misconduct: a systematic, controlled, retrospective study, aproximadamente 75% dos artigos retraídos por razões relacionadas com a má conduta não têm apoio financeiro declarado. Revisão da Cochrane (Industry sponsorship and research outcome (review), afirma que  estudos patrocinados possuem resultados e conclusões mais favoráveis do que os não patrocinados, entretanto, os estudos patrocinados pela indústria apresentaram baixo risco de viés de mascaramento  com mais freqüência do que os estudos não patrocinados pela indústria.

O LEITE NÃO É UM ALIMENTO ESSENCIAL A NUTRIÇÃO DO SER HUMANO ADULTO: Isso não é novidade nenhuma, nem na vida cotidiana das pessoas e nem para a ciência. Existem pessoas intolerantes e alérgicas que conseguem viver normalmente sem o leite. Assim como existem pessoas que não consomem carne, nem derivados animais (como o leite). E podem viver bem e saudáveis (devemos lembrar que alimentos como frutos do mar também induzem alergias). O leite pode trazer também benefícios à saúde humana, assim como trazer prazer em comer diversos dos seus derivados.

MAS DIVERSOS PROFISSIONAIS, MÉDICOS, NUTRÓLOGOS, NUTRICIONISTAS AFIRMAM QUE LEITE DE VACA É SOMENTE PARA O BEZERRO DEVIDO A UMA SÉRIE DE MALEFÍCIOS: Sim, existem tais profissionais. O fato de uma pessoa com elevado nível acadêmico e excelente currículo dizer uma coisa, não significa que ela seja verdade (principalmente notícias bombásticas como o aquecimento global não existe, está comprovado que leite causa câncer, fumar não faz mal, beber água alcalina rejuvenesce etc). Não tome isso como prioridade, investigue sempre. O argumentum ad verecundiam  é uma expressão em latim que significa apelo à autoridade, é uma falácia lógica que apela para a palavra de alguma autoridade a fim de validar o argumento. Este raciocínio é absurdo quando a conclusão se baseia exclusivamente na credibilidade do autor da proposição e não nas razões que ele apresentou para sustentá-la.  Procure ler sobre o assunto, verificar as metodologias dos estudos apresentados pelo especialista, saber se ele não distorceu dados, se só usou dados favoráveis, etc. Existem várias tabelas ou Pirâmides de evidência científica que classificam opinião de especialistas ou experts, como o pior nível de evidência:

http://www.elsevier.com/__data/promis_images/jses_chart.jpg

SE EU NÃO POSSO CONFIAR EM ESPECIALISTAS, E NÃO SEI ANALISAR EVIDÊNCIAS, ONDE PESQUISAR, EM QUEM CONFIAR?  Procure profissionais da área que saibam utilizar as melhores fontes (metanálises, guidelines, etc), e sejam imparciais no assunto. Muitas vezes, profissionais distorcem dados ao seu favor, de acordo com seu ponto de vista, e diversas vezes os mesmos artigos são utilizados em argumentos contra ou a favor a um mesmo assunto:

 (http://zip.net/bbrnQj Esse site dá um exemplo de distorção sobre conclusões de artigos).

Portanto sempre leia as referências (pelo menos as conclusões) e tire um parecer seu sobre o assunto. Diretrizes, guidelines, relatórios baseiam-se em recomendações oriundas de pesquisas extensivas, revisões críticas e síntese da literatura científica publicada.  Quando a literatura científica está incompleta ou inconsistente numa área particular, as recomendações refletem o julgamento profissional de membros e consultores. Cada Guideline reflete o estágio atual de conhecimento para determinado assunto.  Dadas as mudanças inevitáveis dos estágios da tecnologia e informação científica e revisões periódicas, deverão ser feitas mudanças nos Guidelines, para que estes estejam sempre refletindo as tecnologias emergentes.Como exemplos para consulta sobre guidelines temos o Cochrane, o Guideline Appraisal Project, AHCPR Guidelines. (trecho retirado do site http://www.virtual.epm.br/material/tis/curr-med/temas/med5/med5t41999/dado/dadomguid.htm).

MAS ATÉ O MOMENTO, QUAIS SÃO AS REAIS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS PARA O CASO DO LEITE? CAUSA CÂNCER SIM OU NÃO? SE SIM QUAIS TIPOS DE CÂNCER? Como dito anteriormente, existem limitações nas pesquisas que impedem de dizer com clareza que a correlação entre câncer e leite é verdade. Referências para tentar responder esse questionamento existem em relatórios oficiais de institutos especializados em câncer. O Instituto Americano para Pesquisa do Câncer (American Institute for Cancer Research), que é associado ao World Cancer Research Fund, uma associação sem fins lucrativos que tem como visão viver em um mundo onde ninguém desenvolva um câncer evitável, elaborou em 2007 um compêndio oficial sobre as origens do câncer contendo 537 páginas, disponível em PDF gratuitamente no site da organização. Para facilitar a vida de muitos, link do PDF abaixo:

http://www.dietandcancerreport.org/cancer_resource_center/downloads/Second_Expert_Report_full.pdf0

Diversos cientistas (sejam eles contrários ou não ao uso do leite) usam esse documento como referência. Inclusive os conceituados David S. Ludwig e Walter CWillett, em seu editorial (opinião dos especialistas) denominado Three Daily Servings of Reduced-Fat Milk An Evidence-Based Recommendation?, na também conceituada revista JAMA, onde alertam para a probabilidade do leite talvez causar apenas câncer de próstata (Apesar de desatualizado, esse texto deve ser uma referência muito boa a ser lida).

O relatório de 2007, em seu capítulo 4.4 trata do leite e seus derivados. O capítulo afirma que há uma forte correlação entre consumo de leite e derivados com cancro de próstata (e também uma dieta com alto consumo de cálcio) e que o leite pode prevenir o aparecimento de câncer colorretal, e que são fracas as evidências para leite e câncer de mama. A maioria dos sites e artigos analisados tem como base o compêndio de 2007. Mas já existe um novo compêndio atualizado, de 2014, que afirma que após mais revisões com novos estudos, a evidência entre câncer de próstata e leite não é mais considerada forte, ou seja: diminuiu. Além disso, a evidência da associação entre dietas de elevado teor em cálcio e um risco aumentado de cancro da próstata é hoje considerado limitado, quando comparado com o relatório de 2007, em que foi considerada evidência forte.  Link para o novo compêndio de 2014 aqui:

World Cancer Research Fund International/American Institute for Cancer Research Continuous Update Project Report: Diet, Nutrition, Physical Activity, and Prostate Cancer. 2014. Available at:

www.wcrf.org/sites/default/files/Prostate-Cancer-2014-Report.pdf

Interessante citar também este artigo recente, de 2013, denominado de Effects of Milk and Milk Products Consumption on Cancer: A Review, que conclui que os benefícios comprovados do leite superam os riscos. Link do artigo em pdf aqui:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1541-4337.12011/pdf

Aqui mais um site interessante (aparentemente bom e sem distorção dos dados, no caso do câncer) http://www.dairynutrition.ca/ que faz várias considerações sobre o leite, e mostra dados interessantes sobre a relação do leite com algumas doenças (diabetes, hipertensão, problemas ósseos, inflamações), algumas onde ele possa beneficiar e outras se ele pode prejudicar ou ser nulo. A maioria das acusações contra o leite, segundo o site, com suas devidas referências, está sem evidências, ou em alguns casos como do câncer de próstata, com dados limitados.

O Câncer Research UK diz que: Um estudo europeu grande chamado EPIC (The European Prospective Investigation of Cancer) está atualmente a analisar a relação entre dieta, estilo de vida e câncer.Ele está produzindo uma série de relatórios sobre dieta e estilo de vida e uma variedade de tipos de câncer ao longo dos próximos 10 a 20 anos.  Se você gostaria de manter-se atualizado com os resultados do estudo EPIC, acesse o site: http://epic.iarc.fr/

CONCLUSÃO

Portanto, desconfie de médicos, nutrólogos, nutricionistas e outros profissionais que acusam o leite afirmando a todo custo que ele CAUSA câncer. Um profissional competente, ponderado e inteirado sobre o assunto não faria tal afirmação. No momento, a melhor recomendação é uma dieta saudável, bem equilibrada. O cálcio deve ser parte dessa dieta, e o leite é  uma importante fonte de cálcio. Uma dieta saudável também deve ser rica em fibras e incluir pelo menos cinco porções de frutas e legumes todos os dias.  É melhor evitar fumar, limitar a ingestão de álcool e praticar esportes se possível.

sábado, 2 de maio de 2015

O Mito do Óxido Nítrico nos Suplementos


Várias empresas estampam nas embalagens de seus produtos os nomes óxido nítrico (nitric oxide, em inglês) ou NO, abreviação do nome da substância.





www.culturismo.com



Isso induz ao consumidor a achar que realmente o produto que ele está a usar seria mesmo o óxido nítrico. Mas, infelizmente essa não é a realidade. O óxido nítrico é uma pequena molécula que participa de diversos processos metabólicos em nosso corpo, e seu estado físico é o gasoso. Portanto, é impossível se usar suplementação de NO, pois este é um gás. O que é encontrado na maioria desses suplementos é uma substância formadora do NO, o aminoácido L-arginina, ou também o aminoácido citrulina que participa do processo de formação de NO.

Alguns produtos possuem o nome do aminoácido inserido na embalagem, mas mesmo assim de tal forma que o nome não possua muito destaque. A palavra óxido nítrico provavelmente atrai mais as atenções, e alguns consumidores, sem conhecimento profundo, podem pesquisar sobre o NO e passar despercebidos pelo alerta de seu estado gasoso, observando apenas seus efeitos vasculares, e realmente acreditando que possam estar usando óxido nítrico  na suplementação.

Sobre os efeitos do óxido nítrico no nosso corpo, ele realmente é um vasodilatador. Ou seja, ele aumenta a capacidade do vaso sanguíneo para se encher de sangue, motivo pelo qual é utilizado pelos esportistas, que acreditam que esse efeito irá reter mais sangue no músculo, aumentando sua força e tamanho.  Mas o óxido nítrico possui várias funções além desta, e também possui potencial tóxico. Abaixo segue uma tabela com efeitos do NO:

Fonte: Óxido nítrico: o simples mensageiro percorrendo a complexidade. Metabolismo, síntese e funções.(Filho, RF et al 2000).



Portanto, aumentar a concentração do NO em nosso corpo, poderia não ser tão benéfica quanto a indústria de suplementos promete. São vários efeitos, e existe o risco de toxicidade. Mas será que realmente a suplementação com L- arginina aumenta os níveis de NO em nosso corpo?

Segundo o Dr. Paulo Gentil (GEASE):

A disponibilidade de arginina não é limitante para a reação da NOS, pois a quantidade de arginina normalmente disponível no organismo excede em milhares de vezes a quantidade necessária para que as reações de síntese de NO aconteçam (Loscalzo, 2000). De fato, estudos recentes revelam que a suplementação de arginina não promove aumentos na produção de óxido nítrico, além de não influenciar a performance nem o metabolismo durante o exercício (Liu et al., 2008), sendo que resultados similares já haviam sido obtidos anteriormente (Wennmalm et al., 1995).

O estudo de revisão de Angeli (2007) afirma que:

A administração oral de 3g/dia de L-arginina parece potencializar
os efeitos do treinamento com pesos, proporcionando maior
ganho de força e massa muscular e contribuindo para a diminuição
do percentual de gordura corporal.

Já o artigo de  revisão de Nicastro (2008), e a dissertação de mestrado de Borges (2009) não confirmam as evidências de melhora na força e aumento de massa muscular com a suplementação de L-Arginina.

Análise de sites especializados em revisões de artigos e avaliação da qualidade da evidência:

Mayo Clinic: Classifica uso de L-Arginina como nível C de evidência (Não está clara a evidência para uso dessa substancia)

Medline:  Evidência insuficiente (Há evidências inconsistentes sobre os efeitos da L-arginina sobre o desempenho de exercício. Algumas evidências mostram que tomar 6 gramas de L-arginina em uma bebida aumenta o tempo de exercício. No entanto, outras evidências sugerem que tomar L-arginina, por si só ou em conjunto com antioxidantes (Niteworks, Herbalife International, Inc), não melhora o desempenho em ciclistas do sexo masculino.).


Conclusões

Devido à falta de evidências que comprovam a eficácia do uso de L-arginina, o seu uso ainda é contraditório e inconsistente. O que nos resta é esperar para que mais artigos sejam feitos para melhor averiguação de seu uso.

Referências:

ANGELI, Gerseli et al . Investigação dos efeitos da suplementação oral de arginina no aumento de força e massa muscular. Rev Bras Med Esporte,  Niterói ,  v. 13, n. 2, p. 129-132, Apr.  2007

H. NICASTRO, et al . A suplementação de L-arginina promove implicações ergogênicas no exercício físico?Evidências e considerações metabólicas  R. bras. Ci. e Mov. 2008; 16(1): 115-122




Medline in : http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/natural/875.html